26.10.14

Cadernos de Gethsemani

3.


tenho, perante mim, uma grande escolha:
ser humano,
o produto de uma linhagem específica
- animal bípede, ser pensante, com um
sentido de existência muito próprio,
construtor, criador, filósofo nas horas vagas
e com um sentido estético para a poesia

tenho, perante mim, essa escolha:
ser humano e ser presa de um destino
de pequenos nadas

não posso mudar o que se passa em gaza
nem fazer prognósticos para o meu próprio
futuro
não posso escrever "um verso a mais foi escrito
e tudo o que já foi dito antes será repetido mais
uma vez no meu próprio caderno"

tenho essa escolha
que é um cavalo que passa devagar
e que me desabriga de mim mesmo

[uma ferida aberta com todas as possibilidades
de tempo

e com pequenos nadas no lugar
das palavras].


Jorge Vicente

21.10.14

Poema




(fotografia de nila oakes)





carrego uma nuvem às costas

como se dependesse de mim

permanecer no silêncio



naquele silêncio

que não se quer rígido

esquecendo-se do propósito de

existir e de alimentar o fogo



sossega-me ver uma casa ao

longe, adormecida no ceptro

de terra abandonada



uma casa caiada de branco, todas

as casas o são, mesmo que os olhos

roubem a realidade

e deus a ignore.



a memória verga todas as coisas,

mesmo o silencioso movimento

da não-existência.



tudo é ilusório.



a casa abraça

a ferrugem dos corpos caiados

de gestos.   os dedos movimentam-se

numa sinfonia de trevas.


Jorge Vicente